PREFÁCIO
“Há
pessoas que têm uma biblioteca
como
os eunucos têm um harém.”
(Marquês de Maricá.)
Hugo Vaz brinca com palavras. Contudo, ele não tira o
aspecto de seriedade que as palavras encerram em si. Aliás, Hugo dá muita
seriedade às palavras. Este seu livro que ora senta praça na nossa praça, é um
jogo educativo e divertido. É jocoso e sério, ao mesmo tempo.
Todavia, para quem acompanha a trajetória do escritor e
jornalista Hugo Vaz, nada disso constitui novidade. Habituado ao manejo fácil
das palavras, Hugo brinca com elas, com maestria. Dotado de vastos
conhecimentos gerais, inclusive e especialmente linguísticos, ele passeia com
desenvoltura, nesse terreno, sem espanto, nem assombro.
Já com um bom punhado de livros publicados e outros no
prelo, aguardando a hora mais adequada para lançar-se no mercado livreiro, Hugo
nos traz mais essa lição de sabedoria e de dedicação à arte de falar e de
escrever. Mais ainda: dá o tom da sua disposição para pesquisar.
Logo na página dois, Hugo foi a Sevilla e nos trouxe San
Isidro. Com o santo, veio o adjetivo hispalense,
designativo cultista dos que são de Sevilla, os sevillanos.
Graciliano Ramos, o mestre Graça, já dizia, com aquele
semblante sisudo, de homem de poucas palavras: “Liberdade completa, ninguém desfruta. Começamos oprimidos pela sintaxe
e acabamos às voltas com o Dops.” Graciliano não brincava com palavras. Por
isso mesmo, foi excelente escritor.
Sobre Hugo Vaz não preciso falar muito. Pois os seus
leitores já o conhecem bastante. Mas também, não devo ficar mudo. Pois, se
assim fosse, palavras me faltariam. E eu não brinco com palavras. Não sei
brincar de palavreado.
Nesse mundão das palavras, faladas ou escritas, o que nos
espanta é saber que, a despeito da riqueza de vocabulário da nossa língua, os
modismos, os lugares-comuns, os vícios de linguagem etc., cada dia mais
proliferam. Parece que o nosso eterno complexo de vira-latas, de que nos falava
Nelson Rodrigues, referindo-se ao futebol, vai muito mais além. Atingiu em
cheio o campo da linguagem – falada e escrita, repita-se.
Exemplos caseiros vêm logo adiante. Porque é preciso muito
“saco”, para aturar repórteres e outros bichos, falando bobagens e mais
bobagens, neste mundo de meu Deus. Na imprensa nossa de cada dia, fala-se e
escreve-se, entre outras bobagens: “Crianças de zero a dez anos”. Eu nunca vi criança de zero ano. Já vi criança
com 20 minutos de nascida; com seis meses de idade; com um ano etc. Zero ano, para
mim, é novidade.
E o que dizer de “vítima
fatal”? Usam essa expressão, à larga, para se referirem à vítima de morte.
Ora, fatal, tem muitas acepções; uma delas nos diz que é aquilo que causa dano,
que mata; que é funesto. E para vítima, também há vários significados. Um deles
designa quem sofre um dano ou prejuízo. Mas em nenhum momento é dito que vítima
de morte é vitima fatal.
Assim, convenhamos: vítima
fatal seria a vítima de suicídio? Eu conheço vítima de bala, vítima de
colisão, vítima de injúria, vítimas das enchentes dos rios, vítimas de outras
maldades dos homens, vítimas das tropelias dos escribas e de outros falantes e
escrevinhadores etc. Mas nunca vi vítima
fatal, porque nunca vi gente “suicidada”
ou “morrida” por suicídio. De minha
parte, prefiro uma mulher fatal! Que, de fatal, só tem um “bem profundo” que
nos faz tanto bem, desde que o mundo é mundo!
Por falar em mulher, que é coisa boa, peço licença ao Hugo,
para citar uns versinhos do Zé Limeira –
poeta do absurdo. E poeta dos bons, segundo o jornalista Orlando Tejo, que
tão bem o descreve em livro, cujo título está logo acima. Eis aí os versos do
Limeira:
“Senhora dona Zefinha / esposa dum cabra macho /
Muié boa que nem essa / no mundo todo eu não acho.
Eu sou um homi de fé / mas só conheço a muié /
Olhando a parte de baixo.”
Outro:
“São José já me dizia / você tem que ver de tudo:
Cachorrada, safadeza / homi macho cabiludo...
Você vai ver em Campina / muié de carça tão fina /
Que a gente vê o veludo.”
Naquele dia, Limeira havia sido convidado pelo poeta Heleno
Firmino, para uma cantoria na casa deste, em Lagoa Seca – Paraíba. E a primeira
estrofe acima, foi saudando a esposa do Heleno, dona Zefinha. Heleno havia
pegado um gravador emprestado, para gravar a cantoria. E diz que foi uma noite
inesquecível. Diz mais: “Na sua
inocência, o poeta iniciou a cantoria com uma irreverente saudação à minha
esposa, que perdoei, levando em consideração que já conhecia de perto, há
muitos anos, o violeiro do Teixeira (Serra do Teixeira) e sabia que se tratava de um homem honesto,
uma alma pura de criança.”
Retomando o tema principal e deixando a marola de lado: estas
frases,
atribuídas ao professor
Antônio Sales, pra mim, são interessantes e oportunas: “Existem dois tipos de textos – o literário e o não literário. Ambos começam com letra maiúscula e
terminam com ponto. A diferença está
no recheio. O primeiro esbanja talento. O segundo, a informação.” – O
grifo é meu.
Pelos dizeres do professor, fica implícito que há recheios
e recheios. E estes são o conteúdo do que escrevemos. São a essência do texto.
Sem zelo e sem aprendizado constante, os escribas dão com os burros n’água. E
se eles caírem n’água é porque os burros são eles mesmos. Culpa de quem? Da pressa,
das exigências do patrão ou do desleixo com a linguagem? Não importa.
De modo diferente, há um linguista meio pernóstico, ou
pernóstico e meio, de nome Marcos Bagno, que condena todas as gramáticas
normativas; todos os dicionários e mais os manuais de redação, venham eles de
onde vierem. O senhor Bagno quer que a fala e a escrita fluam ao bel-prazer do
falante. O seu livro “Preconceito linguístico”
tem estampado na capa o sogro e a sogra dele. E diz ele que os sogros são
analfabetos. Por isso, têm a linguagem deles. Até aí, tudo bem. Mas em vez de
querer que nós falemos e escrevamos como falam os seus sogros, melhor será que
o “seu” Marcos Bagno ponha o casalzinho na escola.
Também, não vamos ser presunçosos ao ponto de querermos
usar a linguagem padrão, ao falarmos com o nosso homem do campo. Este tem o
direito de falar à sua maneira. Porque foi assim que ele sempre falou. O meio
rural foi a sua escola. Se nós chegarmos lá dizendo que ele está sendo
“redundante” ou que está “inadimplente” perante o banco, ele tomará o maior
susto. Ficará sem palavras!
Assim, a fala deve ser adequada à ocasião e ao espaço. Eu
posso chegar para um amigo muito culto, profundo conhecedor do nosso idioma, e
dizer: “Oh, cara, onde tu andavas?” E
ele não deve estranhar essa fala coloquial, essa informalidade. Contudo, se eu
disser: “Oh, cara, onde tu “andava?”,
ele vai notar que há algo fora do lugar. O verbo aí não casa com o pronome. Reparem
a sintaxe nos oprimindo. Uma opressão que, se mantivermos os devidos cuidados,
não nos vai incomodar. Mas os cariocas falam desse jeitinho troncho e nem se
incomodam com sintaxe!
Digo que Marcos Bagno é pernóstico, porque ele se utiliza bem
direitinho das gramáticas normativas e dos dicionários para escrever os seus
livros e, com eles, ganhar dinheiro. Escreve muito bem, por sinal. Totalmente
de acordo com as normas gramaticais vigentes, que ele tanto condena.
E vamos adiante, sem brincar com palavras. E sem esquecer o
Brincando com palavras. Há uma
sentença atribuída a Eça de Queirós, com a qual eu não concordo tanto. E sei
que muitos discordam por inteiro. A máxima é esta: “Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da
sua terra. Todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele
acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.”- Nem tanto ao mar,
nem tanto a terra.
A propósito, certa vez, num debate sobre literatura, na
União Brasileira de Escritores – UBE – Recife, Raimundo Carrero, já cheio com as
intervenções desnecessárias de um casal velhote, disse: “Por que eu tenho de aprender todas as línguas do universo, só pra
pronunciar bem o nome dos autores estrangeiros? Cada qual que pronuncie do jeito
que souber e quiser.”
Já fiz muitos rodeios, em vez de escrever um prefácio.
É no que dá convidar para tal mister, quem do mister não entende. Por isso,
fico fazendo citações e mais citações. E como fica o recheio de que falei há pouco?
Contudo, transcrevo mais uma. Contam que Catarina da Rússia, dissera esta
frase: “Eu elogio em voz alta e censuro
em voz baixa.” É pena que eu não possa dizer de igual modo. Porque elogio
em voz alta e censuro, também, em voz alta.
Vejamos: em 1º de janeiro de 2009, entrou em vigor um mal formulado
acordo ortográfico, que eu chamo de acordo “pornográfico”.
O uso do trema foi abolido. Mas vai fazer-nos falta. O emprego do hífen, que já
era complicado, ficou bem pior. Muito do que era, deixou de ser. E alguns que
não eram, passaram a ser. E muitos e muitos continuaram sendo. Assim, foi feito
o samba do hífen doido.
Quanto à acentuação tônica, bagunçaram os ditongos abertos
das paroxítonas, como idéia, paranóia, assembléia, jibóia etc., que perdem o
acento agudo. Mas até 31.12.2012, nós podemos escrever tanto da forma antiga,
quanto da atual. Por isso, ainda continuo escrevendo como se essa reforminha
não tivesse havido. No entanto, a partir de 1º.1.2013, se não houver uma
reforma da reforma, passarei a me enquadrar aos moldes então em vigor.
Por tantas e quantas, resta-me recomendar, veementemente, a
leitura do “Brincando com palavras”,
do amigo Hugo Vaz. Notem, por oportuno, a confusão que um adultério poderia causar, quando adultério era crime. Isso, ante as
lentes de um advogado ladino (ou “ladrinho”).
Por fim, divirtam-se com os
ditos populares citados por Hugo. Entre estes, “o pau que nasce torto”. Mas tenham cuidado, porque além de urinar no chão, ele pode fazer
estragos, ao levantar a cabeça. Toda atenção é pouca.
Aprendam também com o menino dorminhoco. Mesmo sabendo que
o irmão achou R$1.000,00 porque acordou cedo, ele, de pronto, replicou: “Mas andou mais cedo quem perdeu o dinheiro,
mãe.” Ponto para o bom baiano. E ponto para este livro que ora é lançado na
nossa praça.
Junho, 2010, José Fernandes
Costa.
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